Veneza está debaixo d'água: vítima de uma das piores inundações da história

Veneza está debaixo d'água: vítima de uma das piores inundações da história

Depois das fortes chuvas e do vento violento que acertou a Itália, Veneza está passando atualmente pelo pior episódio de inundação dos últimos dez anos. O nível da água subiu 1,5 metros de altura deixando os habitantes e turistas com os pés na água. Um espetáculo que deixa à vista um futuro pessimista e sombrio.

As imagens são impressionantes e não são de dar risada. Vemos turistas, com malas em cima da cabeça, tentando avançar nas ruas de Veneza, essa cidade do leste da Itália reconhecida no mundo todo por seus canais e suas gôndolas. Mas, por enquanto, três quartos da cidade estão de baixo d'água. Isso por causa das chuvas intensas e também dos ventos violentos que varreram uma boa parte da Itália.

As intempéries provocaram grandes ondas vindas do mar Adriático vizinho e mandaram água por entre as pequenas ruas da cidade dos apaixonados, da mesma forma que em outras cidades da Itália, especialmente na Sicília. Os danos à população são altos, com pelo menos 29 pessoas falecidas, que caíram em armadilhas postas pela chuva ou que foram levadas pelas inundações.

Inundações recorrentes, mas mais violentas esse ano

Apesar disso, as fotos mostram a praça de Saint-Marc, um dos lugares mais conhecidos de Veneza, inundado, com os pés dentro d'água, algo muito peculiar. De acordo com os especialistas, essas inundações são as piores já vista nos últimos 10 anos na região, a água subiu a 1,5 metros, a quarta marca mais alta já registrada.

Veneza é recorrentemente vítima de inundações no período do outono (período chamado de "acqua alta"), mas foram os ventos do Sul, especialmente violentos, que possibilitaram dessa vez que a água tomasse a cidade. Se alguns escaparam ilesos, alguns restaurantes tiveram que fechar suas portas e autoridades tiveram que subir em pranchas de madeira para possibilitar que turistas e moradores pudessem transitar.

Até os corredores de maratonas locais sofreram com as inundações, foram obrigados a lutar contra a água que chegava até a cintura enquanto havia ruas impraticáveis, fechadas.

Fenômenos a se repetirem no futuro

O problema é que esse episódio não é isolado e deve, contudo, voltar a se repetir no futuro. Pois Veneza é claramente ameaçada à longo prazo de sofrer com a elevação do nível do mar, ligado ao aquecimento global. Os especialistas já alertaram: o mar mediterrâneo poderá ter seu nível elevado em um metro e meio, o que significa que a cidade ficaria de baixo d'água duas vezes por dia, por causa das marés.

As autoridades italianas e as da cidade fizeram um plano de ação, que compreende um sistema de muros, que possibilita que a cidade e a lagoa onde ela se encontra ficarem protegidas da elevação da água. Mas o projeto que já foi intitulado MOSE custou o equivalente a 20 bilhões de reais e parou de avançar, em partes por causa da corrupção. Alguns especialistas estimam, no entanto, que pode ser que ele não seja todavia o suficiente, funcionando apenas como um efeito retardatário.

Esse projeto, atrasado por vários anos, poderia sem dúvida ter evitado inundações como essas pelas quais Veneza passou nesses últimos dias. Mas o tempo da cidade nas gôndolas já pode estar contado e a preocupação cresce no que diz respeito ao seu destino.

Monumentos atacados pelo sal

Monumentos como a Basílica de São Marco já estão sendo atacados e a água do mar já está infiltrando por todos os lados. "Não é que nem um terremoto, não vemos os danos imediatamente", explica um dos responsáveis pelo edifício ao New York Times. Na Basílica, a água dessa vez atingiu o chão de mármore, afogando o velho altar do século IX. E de tanto ficar com os pés na água, os pilares de granito tendem desagradavelmente a encherem de cogumelos.

Uma situação que, se ela faz os turistas mais apaixonados rirem procurando tirar selfies originais, por outro lado, desespera os habitantes que já começaram a sair da cidade. Cansados dos passeios de estrangeiros barulhentos, mas, também, das inundações cada vez mais recorrentes. "Nós nos sentimos completamente impotentes. Passei minha vida tentando proteger todos esses monumentos, e agora, o sal, nosso pior inimigo, está arruinando com tudo", explica o Sr. Rossi, um dos jardineiros da cidade.

Para outros, o desaparecimento de Veneza seria uma perda inestimável. "Pelo que ela representa, é importante que Veneza não morra", afirma Salvatore Settis, historiador da National Geografic. "Ela é importante demais para que a deixemos morrer. Veneza deveria ser preservada, não só pelos vênetos, mas também por toda a humanidade".

• Marcos Silva
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