Os restos de uma religiosa da Idade Média cheios de pigmentos revelam uma verdade surpreendente
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Os restos de uma religiosa da Idade Média cheios de pigmentos revelam uma verdade surpreendente

Escrito por De Freitas Agostinho

Arqueólogos identificaram, dentro da boca de uma religiosa enterrada na Alemanha por volta do ano 1000, minúsculos pigmentos azuis. Uma prova inédita e inesperada do envolvimento das mulheres nas artes que, a princípio, pensava-se ser exclusivamente masculino: a cópia e a iluminura.

São as esquecidas da História. No entanto, a incrível descoberta arqueológica acaba de esclarecer de forma inédita o papel usurpado dessas artistas ignoradas: as mulheres copistas.

Na oportunidade de um estudo publicado na revista Science Advances, uma equipe de pesquisadores da Universidade Britânica de York e do Instituto Max Planck, da Alemanha, revelam ter identificado, na boca de uma monja enterrada no cemitério de um monastério por volta do ano 1000, traços de tinta azul utramarino.

"Diante da distribuição do pigmento em sua boca, nós concluímos que o cenário mais provável é que ela pintava si mesma com o pigmento e que ela lambia a extremidade do seu pincel", explica uma das autoras dos trabalhos, Monica Tromp, microbioarqueóloga do Instituto Max Planck.

Minúsculos pigmentos de lapis lazuli

Foi na verdade junto à placa dentária da religiosa que os cientistas descobriram os resíduos de tinta, encrustados sob a forma de pigmentos microscópicos de um mineral precioso: o lapis lazuli. "[Isso constitui] a prova direta mais precoce de que mulheres religiosas na Alemanha utilizavam pigmento ultramarino", continuam os autores da publicação. E averígua-se que a natureza desse pigmento está longe de ser insignificante.

"Temos aqui uma prova direta de um mulher, não só pintora, mas pintora com um pigmento muito raro e caro, e em um lugar muito isolado", ressalta a autora sênior dos trabalhos Christina Warinner, pesquisadora especialista da evolução dos microbiomas do Instituto Max Planck. Uma constatação impressionante, sendo que esse pigmento de luxo - extraído no Afeganistão e exportado ao longo de toda a Europa e Ásia - era em princípio reservado aos copistas e aos pintores mais talentosas. Um status prestigioso que apenas uma mulher dessa época teria, a priori, mas não é garantido. A princípio só uma!

Papel a ser reconsiderado

A descoberta desses minúsculos pigmentos azuis leva os pesquisadores a redefinir inteiramente os conceitos pré-estabelecidos sobre os artistas iluminadores da Idade Média. "As mulheres copistas ainda estão mal representadas nos escritos históricos, e é provável que uma maioria dos seus trabalhos de copista não tenha obtido o reconhecimento [que teriam merecido]", estimam os pesquisadores em sua publicação.

"Isso me faz me perguntar quantas outras artistas nós poderíamos descobrir nos cemitérios medievais - se nós só procurássemos", conclui Christina Warinner. Graças a minúsculos pigmentos, as esquecidas da história estão sem dúvida a um passo de serem recolocadas.


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