O continente africano está se separando em dois!

O continente africano está se separando em dois!

Um buraco impressionante apareceu no sudoeste do Quênia, após fortes chuvas. Os cientistas enxergam um novo indício da ruptura progressiva do continente africano.  

Na manhã do dia 19 de março surgiu uma gigantesca rachadura no meio da estrada Mahiu-Narok, no Quênia. Com mais de 15 metros de profundidade e medindo 3 quilômetros de comprimento, a impressionante falha surgiu após as abundantes chuvas que assolaram o país recentemente. 

Segundo os geólogos, é possível que a fissura existisse anteriormente e tenha sido preenchida de cinzas vulcânicas do Monte Longonot, vulcão situado no entorno da região. As água das chuvas "lavaram" as cinzas e deixaram à mostra a rachadura. Entretanto, ela pode ser a marca de um fenômeno bem mais profundo e espetacular: a separação do continente africano. 

Uma atividade frequente, testemunha de modificações profundas

"A Terra é um planeta em constante evolução, mesmo se em certos aspectos, as mudanças sejam quase imperceptíveis.", afirmou no site The Conversation a pesquisadora Lucia Perez da Universidade Royal Holloway de Londres. "Mas,de tempos em tempos, um evento espetacular acontece e leva os pesquisadores a fazerem novas perguntas sobre a separação do continente africano".

Quando o planeta sofre um "rifting"

A litosfera (do grego "lithos" = pedra) é a camada sólida mais externa de um planeta rochoso e é constituída por rochas e solo. No caso da Terra, é formada pela crosta terrestre, a parte mais externa, onde vivemos, e pelo manto superior, que fica diretamente após a crosta. A litosfera é dividida em placas tectônicas, em constante movimento umas sobre as outras. As forças resultantes desses deslocamentos podem levar certas placas a romperem-se e a criarem novas ilhas que ficam à deriva na atnosfera (ou manto superior). 

"Assim que a litosfera é submetida a uma força horizontal, ela estica-se e torna-se um pouco mais fina. Ela acaba por romper-se em algum momento, levando à formação de um "rift" ou fratura", segue a especialista.  O processo é acompanhado de uma atividade vulcânica e sísmica mais forte e pode culminar na formação de uma nova bacia oceânica.  

Foi o que aconteceu há cerca de 138 milhões de anos quando a África e a América separaram-se para dar origem ao Oceano Atlântico. E é o que acontece atualmente na região do Vale do Rift, ou Vale da Fenda, um conjunto geológico que se estende por 3000 quilômetros entre o Oriente Médio e a África Austral. O Vale da Fenda corta em duas a região do Chifre da África (designação da região nordeste do continente africano, que inclui a Somália, a Etiópia, o Djibouti e a Eritreia) à leste, deixando de um lado a placa africana e do outro a somali.

Uma nova África, dividida em duas

Iniciada há cerca de 20 milhões de anos essa fratura pode, nos próximos milhões de anos, levar a uma separação e uma oceanização (o conjunto de fenómenos que levam à abertura e desenvolvimento de um oceano). Em resumo, a África poderá ser dividida em duas.

Essa atividade geológica "tornou-se visível no momento em que essa fratura imensa surgiu no sudoeste do Quênia", afirma Perez Diaz. A fragilização da litosfera no Vale da Fenda gerou uma pressão no nível da atnosfera. Essa protuberância, cheia de magma comprimido, combinado com um aumento no calor, pressiona a litosfera, a distende e leva a uma fratura. 

Hoje, é difícil dizer se o grande buraco surgido no Quênia é o resultado direto desse sistema de "rifting". De qualquer maneira, não há motivo para alarde: a ruptura da África deve acontecer em uma dezena de milhares de anos. Ainda há tempo para nos prepararmos. 

• Marcos Silva
Leia mais